sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Teoria do Jogos - jogador irracional

Recentemente comecei a estudar sobre a Teoria do Jogos. Para os que não ouviram falar, trata-se de uma teoria matemática que tem por finalidade buscar um modelo que se aplique ao fenômeno da interação entre dois ou mais sujeitos, envolvidos num processo de tomadas de decisões conscientes.
Para algo ser considerado um jogo é necessário a existência dos jogadores, das estratégias, das recompensas e do conhecimento comum entre os participantes acerca das regras.
Mas na verdade, o motivo deste post refere-se ao que se considera o jogador "irracional". As aspas se devem ao fato de que a priori nenhuma estratégia é considera irracional. Mas há o jogador considerado irracional, pois é aquele que não respeita as próprias preferências, talvez por que nem ele tenha claro em dada altura, quais são seus reais interesse num processo de disputa. Observa-se uma incongruência entre o que se quer e o que se faz. O contraponto seria o jogador racional, que faz escolhas com a finalidade de consecução de seus reais interesses.
Quantas não são as situações em que nós ou aqueles com os quais estamos em disputa assumem uma estratégia irracional? Seja no campo social, familiar, afetivo ou profissional, o fato é que isto é corriqueiro.
Talvez a dificuldade esteja em reconhecer que, por trás do comportamento do nosso jogador irracional existam motivações de natureza irracional que não necessariamente tenham nexo de causalidade com a parte contrária naquele jogo específico. Mágoas, ressentimentos, traumas e toda a sorte de sentimentos e experiências que de alguma maneira nos marcam podem e de fato afetam a maneira como estabelecemos nossas estratégias. Estes engrams modulam a nossa reatividade frente a situações de disputa. Conscientemente ou não, tais comportamentos nos impelem focar nossa disputa numa posição ao invés de nos nossos próprios interesses. Passa a ser mais importante como eu afetarei a posição do outro (emocional, financeira, social, etc.), do que qualquer estratégia que possa ser mais eficaz para atingir meus resultados.
Ao outro, se bom jogador, cabe a possibilidade de perceber o contexto e desenvolver uma estratégia na qual promova a busca cooperativa de solução.
Numa mediação esta percepção é uma ferramenta poderosa, a medida que nos instrumentaliza a fazer com que a parte possa se apropriar de seus próprios interesses e assim, estabelecer estratégias mais racionais e eficientes.
Cabe anotar que de maneira alguma considero algum tipo de hierarquia entre a considerada racionalidade versus a irracionalidade. Mas, a depender da situação, a maneira como a irracionalidade emerge pode prejudicar o indivíduo.
É um equívoco menosprezar uma teoria que por sua natureza pode ser, levianamente, considerada de pouca aplicação à compreensão do comportamento humano. Ao contrário, traz elementos valiosos ao entedimento de como as pessoas decidem por uma estratégia de relacionamento mais ou menos cooperativo. Para quem se interessar, vale pesquisar sobre o dilema do prisioneiro.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Manyeyes

No final do ano passado realizou-se em SP, quase que clandestinamente pela pouca divulgação, a versão brasileira do TED. Entre os palestrantes fiquei impressionado com a apresentação da Fernanda Viégas, falando sobre uma ferramenta desenvolvida pela IBM chamada manyeyes que tem por finalidade organizar e compilar volumes de informação gigantescos. Parte-se da premissa que o volume atual de informações é tão grande, que torna-se uma missão inglória conseguir processá-las e compreendê-las. Este programa torna a informação facilmente inteligível através de representações gráficas. O que é fascinante é que não há restrições quanto ao tipo de informação que pode alimentar o programa (números, textos, imagens, etc.) e não menos importante: é gratuito.

Dada a dica!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

lançamento e máxima

Foi editado recentemente, com tradução direta do russo a obra "O Mestre e Margarida"( Ed. Alfaguarra, tradução de Zoia Prestes), de Mikhail Bulgakov (1891-1940), que relata, em pleno regime comunista a visita do demônio e seu séquito à Moscou. A visita revela as incoerências, contradições e hipocrisias do regime através das personagens, as quais ficam marcadas pela loucura e destruição causados pela comitiva.
"Manuscritos não ardem", máxima criada pelo autor, foi popularizada durante o regime comunista na União Soviética, e que talvez seja apropriada aos nossos tempos e bandas, em que há tentativas escancaradas de submeter a livre manifestação de idéias ao controle estatal. Abaixo um trecho de uma carta de Bulgakov enviada à Stálin em 1930. Além de genial, digamos que no mínimo o cara era corajoso.

"Após todas as minhas obras terem sido proibidas, começaram a ecoar vozes entre muitos cidadãos dos quais sou conhecido como escritor, que me dão sempre o mesmo conselho: Escrever uma 'peça comunista' e, além disso, dirigir ao Governo da União Soviética uma carta de arrependimento, contendo a negação de opiniões precedentes manifestadas por mim em obras literárias, e assegurando que doravante hei de trabalhar como um escritor fiel à idéia do comunismo. Não dei ouvidos a esse conselho. É pouco provável que lograsse aparecer num aspecto favorável tendo escrito uma carta mentirosa. Nem mesmo ia tentar escrever uma peça comunista, sabendo naturalmente que não conseguiria. TODO E QUALQUER SATÍRICO NA UNIÃO SOVIÉTICA ATENTA CONTRA O REGIME COMUNISTA. Será que sou admissível na União Soviética?"



quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Convite / Constelação Familiar

Em janeiro estou com um grupo de Constelação Familiar, atuando como facilitador. O convite segue abaixo.
Sejam benvindos!
Abraço





Introdução à Mediação (parte 2)

O modelo propõe que o mediador atue como um facilitador da comunicação inter-partes, na compreensão e distinção entre interesses e disputas, as quais geralmente, em um conflito, não coincidem. Interesses estão vinculados à demandas genuínas e legítimas, de maneira que não correspondem a uma necessidade disfuncional de prejudicar a outra parte, comportamento mais associado a uma defesa de posição. O interesse se distingue da posição, à medida que esta se refere a uma postura motivada pela reatividade à parte contrária. Em mediação, os interesses estão associados às necessidades autênticas do indivíduo, ainda que a parte contrária possa se sentir prejudicada por este interesse.
A disputa ocorre quando nossos reais interesses são eclipsados por uma necessidade infantil de atacar, invalidar, humilhar, prejudicar, ferir a outra parte. No momento em que a importância de reagir, motivada por ressentimentos e mágoas supera o que lhe é realmente importante, via de regra o sujeito perde de vista o seus reais interesses, suas necessidades. Num conflito instalado em que os interesses cedem espaço à disputa por demonstração de força, observa-se uma escalada de violência que retroalimenta uma relação desgastada por um padrão de comunicação que se mostra disfuncional.
O mediador é chamado a intervir geralmente quando as emoções das partes são de tal magnitude, que impedem um diálogo com a finalidade de acordo, e a comunicação entre as partes é ou está empobrecida em quantidade e qualidade de contato e as partes não conseguem sozinhas mudar este quadro; esterótipos, ou percepções distorcidas impedem a troca produtiva; condutas negativas baseadas em crenças se repetem criando barreiras; são mantidas controvérsia acerca das informações em pauta e os critérios para sua avaliação; as partes discordam em relação à ordem e à combinação em que as controvérsias devem ser encaminhadas; há incompatibilidade de interesses, reais ou imaginários; há ausência, desacordo ou equívoco em relação procedimento de negociação; não há estrutura aceitável para negociações; surge impasse em relação ao ínicio das negociações (MOORE, 1998). Estes casos não são taxativos, de maneira que outras situações podem demandar o envolvimento de um mediador, mas este rol exemplifica as situações que, costumeiramente, são enfrentadas para que se viabilize o estabelecimento de um canal de negociação.
Neste sentido, pode-se dizer que a mediação tem função terapêutica, ao promover o exercício da auto-observação, que por consequência facilita a observação e aceitação das necessidade alheias. Nas palavras de Cezar-Ferreira ( 2007; p.158), “no campo do comportamento humano, entendendo-se que o interpsíquico esteja sempre em ação, mesmo práticas não terapêuticas podem levar a algum efeito terapêutico, vale dizer, à ressignificação que se faça necessária dentro do próprio sistema de significados.”
O processo de mediação investe na capacidade de transformação, criatividade e assertividade das partes, para que, co-autoras da solução, fiquem mais satisfeitas e comprometidas do que com uma decisão imposta por terceiro. Assim,
A mediação é uma resposta a uma forma de atuar no conflito, encontrada nas mais diversas sociedades, conhecida por cultura adversarial. Um conflito, não necessariamente é algo negativo, mas ao contrário, possui uma função adaptativa de possibilitar o estabelecimento de limites facilitando a convivência humana em busca da paz social. A questão é como garantir que o conflito exerça sua real função, ao promover novos acordos que possibilitem a convivência entre familiares, estabelecendo novos limites por pactos novos ou refeitos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Introdução à Mediação (parte 1)

A palavra mediação se origina do latim mediare, que por sua vez significa partir ao meio, repartir em duas partes iguais. Já mediatio aponta para ação de intervenção, de intercessão. A ação de mediar carrega o sentido de, no meio entre dois pontos, fazer a distribuição equitativa entre perdas e ganhos.

Historicamente, foi Justiniano que adotou pela primeira vez o termo “mediador” mais próximo da nossa acepção moderna, em substituição a proxenetas (proxenetae), que eram os mediadores que atuavam nas províncias (NETO, 1991). Mas, antes disto, a mediação já se fazia presente nas mais diversas culturas: judaicas, cristãs, islâmicas, hinduístas, budistas, confucionistas e em muitos grupos indígenas (MOORE, 1998).

Modernamente, a mediação se firma na década de 70 com objetivo de responder a uma demanda crescente nas situações de crise em instituições voltadas para a socialização, tais como : família e escola e suas relações com outras instituições da comunidade como igreja, hospital, bairro, vizinhança, clubes, entre outros.

Como já foi dito anteriormente, a mediação é geralmente definida como a interferência em uma negociação ou em um conflito de uma terceira parte aceitável, tendo um poder de decisão limitado ou não-autoritário, e que ajuda as partes envolvidas a chegarem voluntariamente a um acordo, mutuamente aceitável com relação às questões em disputa. Além de lidar com questões fundamentais, a mediação pode também estabelecer ou fortalecer relacionamentos de confiança e respeito entre as partes ou encerrar relacionamentos de uma maneira que minimize os custos e os danos psicológicos. (MOORE, 1998; p.28).

A intenção é possibilitar que as partes possam, através da intervenção de um terceiro neutro, exercer a autonomia da vontade privada, e construir a solução para o conflito, ou ao menos minimizá-lo. Assim, também é considerada um método para a "resolução alternativa de disputas” (RAD), que segundo Schnittman (1999, p. 17) “podem ser definidas como práticas emergentes que operam entre o existente e o possível”. Ou ainda, "a mediação é uma forma de autocomposição dos conflitos, com o auxílio de um terceiro imparcial, que nada decide, mas apenas auxilia as partes na busca de uma solução" (BUITONI, 2006, p. 111).

A mediação passa a ser vista como uma estratégia para antecipar, prevenir ou manejar conflitos, mas, acima de tudo, como um processo para estimular decisões cooperativas, não podendo portanto ser a mediação confundida com:

1o a negociação, que se caracteriza pela busca de um acordo de mútuo interesse e, na presença de conflitos, pela adoção de padrões corretos, sem considerar propostas puramente individuais (FISCHER; URY; PATTON, 2005). Se dá por um processo no qual duas ou mais partes com interesses conflitantes buscam, por meio de estratégias e argumentos convencer o ex adverso de seu ponto de vista, até que um consenso seja alcançado, ou não. Geralmente, numa negociação, as partes não estão necessariamente comprometidas com ganhos mútuos;

2o a conciliação, praticada por juízes e advogados ou não, se baseia na busca pela conciliação através da aproximação dos interesses dos litigantes a um ponto de convergência. Nos casos de disputas puramente materiais, pode ser um recurso muito eficiente. O conciliador, não raro convence as partes com base em argumentos da ordem do "melhor um mau acordo, do que uma boa demanda"; e;

3o a psicoterapia, que se dá através de intervenções psicológicas direcionadas a trabalhar com padrões de funcionamento individual ou grupal, que se mostram pouco funcionais por serem causa de sofrimento. Ainda que a queixa seja pontual e restrita, o trabalho de dá de maneira ampla e abrangente, sem que haja um prazo determinado, ou objetivo definido. Diferente da mediação e da conciliação, pode ser um processo individual.

O sistema jurídico é baseado no normativismo dirigido a neutralizar o dissenso e não para formar consenso (BUITONI, 2006, p. 111). Assim, nossa cultura é adversarial, na qual, via de regra, os conflitos devem ser dirimidos com a finalidade de declarar um ganhador e um perdedor. Está funcionalidade binária reduz sobremaneira a gama de possibilidades de soluções frente a um problema, considederando todo ser humano também formado por um inconsciente, por desejos, sonhos, sentimentos ambiguos e não necessariamente lógicos ou coerentes sob um olhar dualista. A realidade é multifacetada, e os simbolos e significados polívocos:

Nossa cultura privilegiou o paradigma ganhar-perder, que funciona como uma lógica determinista binária, na qual a disjunção e a simplificação limitou as opções possíveis. A discussão e o litígio como métodos para resolver diferenças dão origem a disputas nas quais usualmente uma parte termina 'ganhadora', e outra, perdedora. Essa forma de colocar as diferenças empobrece o espectro de soluções possíveis; dificulta a relação entre as pessoas envolvidas e gera custos ecônomicos, afetivos e relacionais. (SCHNITTMAN, 1999; p. 17)

"Reduzir tudo ao dualismo lícito/ilícito, permitido/proibido, inocente/culpado... é mutilar as infinitas possibilidades de argumentar e avaliar as situações comportamentais, muito além do raciocínio binário do direito." (BUITONI, 2006, p.111)

Por outro lado, considerando que área de mediação está em processo para se tornar uma profissão, com corpo de conhecimentos, habilidades e padrões próprios (HIGHTON; ALVAREZ, 1999, apud Cezar-Ferreira, p. 161) é de se esperar que cada mediador traga à prática a sua experiência e bagagem acumuladas, oriundas de suas atividades originárias.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Marshall Rosenberg - Comunicação não-violenta

Segue link com uma entrevista com o criador da Comunicação Não-Violenta. Ele descreve, com exemplos práticos, do que se trata esta poderosa ferramenta de comunicação.

tara por máximas

Uma verdadeira tara são máximas. Eu as coleciono. Acredito que elas tem o poder de concentrar idéias que encerram grandes verdades. Além do que, não raro são inspiradoras, provocativas e refinadas.

"Freud ensinou que o amor era a supervalorização. Ou seja, se você visse o objeto amado como realmente é, não seria capaz de amá-lo." (Saul Bellow)

Os (a)normais

Reproduzo abaixo a coluna do João Pereira Coutinho (que sempre vale a leitura, independentemente da concordância com suas opiniões), que de maneira bem-humorada e ácida faz uma crítica às tentativas de se "normalizar" todo e qualquer indivíduo que apresente algum comportamento tido como desviante. Breve comentário abaixo.


JOÃO PEREIRA COUTINHO


A TIMIDEZ É doença? Uma amiga minha acredita que sim e procurou ajuda especializada. Entrou numa consulta de psiquiatria e, como normalmente acontece, nunca mais de lá saiu. Um ano depois, e algumas sessões depois, existem progressos: ela consegue estar num "evento social" e conversar "naturalmente" com as pessoas em volta. A terapia ajudou (muito). A medicação ajudou (muitíssimo): um coquetel de antidepressivos e ansiolíticos que a obrigaram a sair da concha e a conhecer o mundo.
Escutei tudo isso ao almoço e não pude deixar de pensar como o mundo é um local estranho. Tempos houve em que certos comportamentos pessoais eram parte da diversidade humana. Uma pessoa tímida era simplesmente uma pessoa tímida. Uma pessoa expansiva era simplesmente uma pessoa expansiva. Nem todos podemos ser borboletas. Alguns acordam para o mundo e descobrem, ao contrário do que Kafka dizia, que os pequenos insectos também têm o seu encanto.
Gradualmente, a psiquiatria começou a ter uma palavra sobre o assunto, procurando "regular" ou "normalizar" a variedade de que somos feitos. Não é preciso ter lido Foucault para acreditar nessa história, até porque o radicalismo de Foucault não ajuda e só atrapalha. Basta olhar em volta.
Basta olhar para amigos tímidos, ou então para crianças hiperativas (ou deliciosamente preguiçosas), e encontrar neles um potencial doente, um potencial demente, a exigir intervenção psicofármica. Uma parte da medicina moderna acredita na ideia, pessoalmente aberrante, de que deve existir um padrão de "equilíbrio comportamental" para definir um ser humano harmonioso, realizado e feliz.
O problema é que poucos correspondem ao padrão. Depois desse almoço, regressei a casa, disposto a investigar o crime. E então encontrei, por feliz coincidência, o relato precioso da última reunião da American Psychiatric Association, em São Francisco. Segundo parece, essa vetusta agremiação de luminárias discutiu as últimas alterações ao manual de referência da especialidade, o "Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder". Publicado desde 1952, e revisto de década em década, o manual pretende agora incluir novas "doenças" mentais, em sintonia com o espírito do tempo. Exemplos? Vários.
Para começar, existem "doenças" relacionadas à alimentação. É o caso da "binge-eating disorder" e da "night-eating syndrome". Em linguagem de gente, a primeira refere-se a uma compulsão excessiva para comer mais do que o estritamente necessário; a segunda pretende diagnosticar, e tratar, o gosto perverso por assaltar a geladeira depois da meia-noite. Mas a lista de novas "doenças" não fica por aqui.
O vício pela internet e pelo e-mail ("internet addiction"); o gosto por vários parceiros sexuais, em sucessão ou em simultâneo ("sex addiction"); a compulsão "terapêutica" por compras ("compulsive shopping"); a fúria incontrolada e muitas vezes injustificada ("embitterment disorder"); o preconceito perante a "diferença" ("pathological bias"); e mesmo a tendência idiossincrática para colecionar materiais diversos ("pathological hoarding"), nada escapa à inquisição psiquiátrica.
Leio esse admirável cardápio e sorrio de espanto. Ou de medo. Ou de ambos. Razão simples: de acordo com a bíblia da psiquiatria mundial, eu sou objectivamente um demente. Nada que surpreenda os meus leitores mais regulares, é certo. Muitos menos as pessoas que partilham a minha existência.
Mas algo me surpreende. Eu nunca imaginei que a minha gula (diária e noturna); os meus acessos de fúria (justificados ou não); os meus recorrentes preconceitos (contra políticos, adolescentes ou feministas); os meus desportos mais íntimos (que não incluem a monotonia); a forma criminosa como gasto fortunas (em camisas, sapatos, ternos); e a minha tendência para guardar obsessivamente os mais ridículos objetos (jornais antigos, próteses, peças de lingerie alheias), fosse motivo para tratamento médico especializado.
Prometo marcar consulta. E prometo emergir das sessões um homem novo: vegetariano, ambientalista, tolerante, multicultural e, no duplo sentido da palavra, com espírito de missionário.
No mundo moderno em que vivemos, a única doença tolerável é mesmo a normalopatia.


Se é verdade que de um lado existe um discurso que pretende "normalizar" geral e indiscriminadamente qualquer comportamento "considerado" desviante, na tentativa de criar uma "ditadura normopata", é bem verdade que há uma outra corrente que advoga que a loucura seria uma construção social, como manifestação de uma ordem instituída com o objetivo de estigmatizar o chamado louco.

Curioso que em ambas as posições há sempre um "sábio" estabelecendo um modelo ideal de homem e sociedade. Em que pese aquela ladainha de que somos entes políticos, e que qualquer posicionamento revela uma ideologia por trás, o fato é que qualquer que seja o caso perde-se de vista o eventual sofrimento daquela pessoa que tem nome, sobrenome e identidade própria.

Basicamente, condenar unilateralmente alguém a ser tratado ou não, por mais altruísta que possam ser suas motivações, com base em teorias, protocolos, estatísticas, ideologias é de uma obtusidade só. Ainda que, excepcionalmente tratamentos tenham que ocorrer de forma compulsória, pela total incapacidade do indivíduo se manifestar de maneira consciente, assumindo as consequências de suas escolhas.

Por mais lugar comum que seja, a diversidade é enriquecedora, principalmente quando se desenvolve livre da intolerância dos tolerantes.



sábado, 27 de junho de 2009

TED - ideas worth spreading

Se você quiser descobrir o que as mentes mais brilhantes pensam (ouvindo de suas próprias bocas), não deixe de visitar o site www.ted.com. Definitivamente uma das coisas mais interessantes que encontrei na Internet.
CONSTELAÇÃO FAMILIAR

Há alguns anos atrás, várias pessoas que não se conheciam (algumas de outras nacionalidades), entre elas um grande amigo de total confiança, comentavam sobre um trabalho terapêutico chamado Constelação Familiar. Por mais que explicassem eu não entendia exatamente o que era. Acabei participando de um grupo conduzido por um excelente profissional, o Maurice Jacoel. A partir daquela experiência fiquei fascinado por este trabalho desenvolvido pelo alemão Bert Hellinger, o que me levou a fazer a formação. Abaixo segue um texto introdutório sobre o assunto.


CONSTELAÇÃO FAMILIAR - BREVE INTRODUÇÃO


“… na família e no grupo familiar existe uma necessidade de vínculo e compensação, partilhada por todos, que não tolera a exclusão de nenhum membro. Quando ela acontece, o destino dos excluídos é inconscientemente assumido e continuado por membros subsequentes.”

“Quando, porém, os membros remanescentes reconhecem os excluídos como pertencentes à família, o amor e o respeito compensam a injustiça que foi cometida contra eles, e seus destinos não precisam ser repetidos. É que chamamos aqui de solução”(Bert Hellinger)

A Constelação Familiar é uma intervenção terapêutica desenvolvida pelo terapeuta de origem alemã Bert Helinger. Missionário, Hellinger, além da formação psicanalítica, foi fortemente influenciado pelos scripts de Eric Berne, O Grito Primal de Arthur Janov, a Terapia Familiar, a Hipnoterapia de Milton Erickson e PNL. Mas, especialmente, a prática da Constelação Familiar se inspira na fenomenologia, na teoria geral dos sistemas e no psicodrama.

O seu trabalho é baseado na concepção da família como um sistema regido por ordens hierárquicas, denominadas Ordens do Amor. O sistema familiar se organiza pelo que ele chama da alma da família (ou campos antropomórficos), que por sua vez estaria conectado à grande alma. Neste sentido, todo indivíduo nascido em dada família possui o direito inalienável de pertencimento àquele sistema.

Quando pessoas são excluídas, consciente ou inconscientemente de seus sistema, ou ainda, quando há destinos trágicos que envolva(m) membro(s) da família, haverá sempre alguém que irá, por amor e lealdade assumir e continuar a desempenhar o papel do excluído. Isto implica a formação do que chamamos emaranhamentos. De um lado há o excluído, e por outro há um membro da família que, por seguir aquele destino, cria desequilíbrio no sistema.

A Constelação Familiar proporciona a possibilidade de identificar os emaranhamentos e, através de um olhar amoroso mas ao mesmo tempo firme, buscar a solução a partir da leitura do próprio sistema.

Na prática, o cliente é brevemente entrevistado pelo constelador, que irá perguntar sobre a questão que o leva a solicitar ajuda terapêutica. Aqui, pouco interessa os julgamentos e opiniões do cliente a cerca de pessoas ou situações. O essencial é a descrição do problema e a investigação de rupturas, exclusões ou situações trágicas naquele sistema. A partir daí, o constelador proporá a linha de trabalho, com o cliente escolhendo pessoas do grupo para representarem os elementos do sistema a ser trabalhado. Os representantes devem ser posicionados no espaço destinado ao trabalho, a partir de uma imagem intuitiva do cliente. Quando todos os representantes estiverem posicionados nos seus lugares o constelador irá perguntar como se sentem. A partir das informações dadas pelos representantes, diálogos e mudanças de posição acontecem buscando o re-equilíbrio do sistema, o qual é atingido quando todos os representantes relatam bem-estar, leveza e harmonia. Quando a imagem da solução é encontrada, o cliente assumi o seu próprio papel no lugar do seu representante, e experimenta ele próprio a solução sistêmica

A visão a partir do problema estreita nosso horizonte. A Constelação Familiar possibilita a visão da solução a partir do sistema, apontando a melhor maneira de nos libertarmos de padrões improdutivos, desequilibrados e pouco integrativos em direção à harmonia, equilíbrio e auto-realização.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Inauguro este blog compartilhando um pouco dos meus interesses, curiosidades, objetivos, angústias e inquietudes.

Compreendo que a busca por conhecimento nasce de um incômodo, uma inquietude, um desassossego. No meu caso, este estado me acompanha desde que eu me lembro por gente. Sinto uma sede de compreender os fenômenos psíquicos, e, preconceitos à parte, os chamados metafísicos também. Nesta busca simpatizo com diversas áreas nas quais o conhecimento humano se manifesta, considerados científicos ou não, o que resulta num ecletismo que por vezes assusta os mais incautos.

Espero que neste espaço possa compartilhar aqueles autores e idéias que me tocam de alguma maneira, seja aumentando ou diminuindo minha inquietude, mas sempre de uma forma verdadeira e significativa. Entre eles: C.G. Jung, Viktor E. Frankl, Murray Bowen, Bert Hellinger, Marshall Rosenberg, Humberto Maturana, Gregory Bateson, Rudolf Steiner, Paul Eakman, Rollo May, Krishnamurti, Eckhart Tolle.

As experiências acadêmicas em direito e psicologia; extra-acadêmicas em todos os assuntos que me interessaram e interessam no presente; e, "last but not least", minha vivência pessoal nas esferas profissional, familiar, social e afetiva me levaram a desenvolver um especial interesse pelo tema da comunicação inter-pessoal e das questões que afetam a instituição chamada família.

Profissionalmente meus objetivos são o atendimento clínico, individual ou familiar, o trabalho em empresas familiares em situações de sucessão ou conflito inter e intra geracional, e a atuação como mediador de conflitos familiares e constelador familiar (temas que espero abordar detalhadamente em futuros posts).

Não posso esquecer de agradecer a duas pessoas: Ao Boris Drizyn (http://www.timingconsultoria.com.br/materias.php?cd_secao=22&codant=), excelente personal coach, consultor e palestrante, que, durante um bate-papo formidável quando nos conhecemos num encontro social generosamente falou que eu já deveria ter publicado meu blog e site. O outro agradecimento é para meu amigo e artista de talento, Fernando Cardoso (http://www.fcardoso.blogspot.com/), que também me incentivou a usar esta ferramenta para divulgar meu trabalho.

É isto aí! Espero sinceramente que este blog seja um fonte de conhecimento para todos.

Benvindos!
Daniel Rothenberg